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	<title>Doce Fúria</title>
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		<title>O inconvencional</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Jun 2011 19:00:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>William</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Churrasco na casa de praia dum brother meu, litoral norte. Ubatuba. Altas horas da madruga. Ninguém além de mim, tocou nas cervejas, que sobraram aos montes no congelador. Povo fresco, se entupiram, isso sim, de haxixe e bastante uísque. Estranho. &#8230; <a href="http://dozes.wordpress.com/2011/06/27/o-inconvencional/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=dozes.wordpress.com&amp;blog=13327426&amp;post=1248&amp;subd=dozes&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#000000;">Churrasco na casa de praia dum brother meu, litoral norte. Ubatuba. Altas horas da madruga. Ninguém além de mim, tocou nas cervejas, que sobraram aos montes no congelador. Povo fresco, se entupiram, isso sim, de haxixe e bastante uísque. Estranho. Não havia touro vermelho malemá cocaína, nem LSD, então a maioria foi pros quartos, dormir ou transar. Ajudei os caras a arrastar meu brother para a cama, amigo de longa data e dono da casa, semi inconsciente, a duras penas, até a suíte dele. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">O cara tava na pior, por preguiça, no fim, nem demos o banho, de preferência frio, essencial nesses casos. Giovana, a namorada dele, passou parte do churrasco de braços cruzados, na varanda, cigarro entre os dedos, compulsiva, (toda jornalista é compulsiva), um atrás do outro, acompanhado de uma garrafa térmica com o café que ela mesma deve ter preparado, (café é alpiste de jornalista), reparei, que vez em quando ela nos fulminava com aquele olhar de deboche, mal a vi conversar com alguém, (jornalista se acha superior), era uma das poucas mulheres ali, aparentemente tava sem papo ou paciência com aquela galera desde o comecinho da tarde, sem nem disfarçar a birra, enquanto meu brother e os outros berravam cada vez mais alto em intermináveis rodadas de truco alcoolizadas, que ainda se estenderiam por certo tempo, depois que o levamos para cama. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">O curioso é que ela não subiu pro quarto. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Apaguei a churrasqueira, e embalei o que restou da carne no papel alumínio, pro dia seguinte. Abri a quinquagésima latinha, só bebo cerveja, destilado me deixa outra pessoa. Fico chato. Aí puxei uma cadeira pra acompanhar de fora, o grupo que jogava, já que não jogo. Sem perdê-la, é claro, do alcance de visão. Magnetismo, tá ligado? </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Não demorei para notar que ela começou a lançar olhares cada vez mais fixos em minha direção, e dessa vez sem deboches, (jornalistas são objetivas?). Mano, aí, foi que ela se levantou da cadeira de balanço, na varanda. Pensei que fosse entrar na casa, ou, enfim, resolvido ir dormir ao lado do namorado breaco, antes, tomar uma ducha ou pôr para ferver mais água para um chá providencial. </span><span class="Apple-style-span" style="color:#000000;">Talvez sofresse de insônia aguda, talvez tivesse dificuldade para pegar no sono fora de casa, e esquecera o tarja-preta em São Paulo. (jornalistas são doentinhos) Mas, não. Giovana tomou direção oposta e desceu o declive, gramado abaixo, onde os nossos carros estavam estacionados. Entendi, ou achei que tinha entendido  o recado, e fiz o mesmo. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Lá embaixo, o breu completo, orquestrado por sons de grilos, do eco distante do mar e da escassa, mas, não menos necessária luz da lua. Poético. Ela, recostada no carro, a brasa de cigarro na altura da boca em combustão indicava o alvo em meio ao negrume. Um rosto obscuro, de pensamentos obscuros? Perguntei se estava em busca de um calmante no porta-luvas. Séria, ela respondeu que, drogas e alcool são aparatos do sistema globalizado para, indiretamente, manipular e entorpecer nossa percepção e desfocar as verdadeiras e nobres intenções do raciocinio sobre a real condição do desenvolvimento humano. Essas merdas que todo estudante de Federal gosta de falar. Minha resposta: um longo beijo. Selvagem, como o capitalismo.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Puxei a maçaneta da porta do carro, onde ela e sua bunda estavam encostadas, mas a porra do alarme começou a disparar assim que abri. Zica. Dei uns murros no capô, e ele silenciou. Aprendi esse macete, quando morei na periferia. Entramos aos trancos e arrancos. Fodemos no estofado traseiro. &#8220;Goza comigo&#8221;, ela pediu. Bateu a culpa. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Lembrei de uma conversa com um taxista, anos antes, que dizia ter parado de beber há mais de duas décadas, e filosofou que, enquanto o cara enche a cara numa festa, com chances claras de dar escândalos e agir feito idiota, ele, o taxista, o homem, está ali, pronto para o bote, sóbrio, prestes a traçar a mulher do beberrão, entendeu? Isso só agravou minha culpa, sei lá por quê, em relação ao meu brother. Mas continuei com o espetáculo. Só pedi pra ela não me unhar por que como eu ia entrar na piscina no dia seguinte? Teria que inventar mentiras, e eu não sei mentir, gaguejo. &#8220;Goza comigo, goza&#8221;, implorou. Gozei porra nenhuma. Nem nas outras vezes, já em São Paulo, em encontros clandestinos, era a mesma ladainha, &#8220;Goza comigo, quero te ver gozar&#8221;. Nunca gozei. Não com ela. Não dei esse prazer. No fundo, isso até me divirtia.</span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/dozes.wordpress.com/1248/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/dozes.wordpress.com/1248/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/dozes.wordpress.com/1248/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/dozes.wordpress.com/1248/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/dozes.wordpress.com/1248/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/dozes.wordpress.com/1248/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/dozes.wordpress.com/1248/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/dozes.wordpress.com/1248/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/dozes.wordpress.com/1248/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/dozes.wordpress.com/1248/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/dozes.wordpress.com/1248/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/dozes.wordpress.com/1248/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/dozes.wordpress.com/1248/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/dozes.wordpress.com/1248/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=dozes.wordpress.com&amp;blog=13327426&amp;post=1248&amp;subd=dozes&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Vênus oposto Saturno</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Jun 2011 06:21:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>William</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Beltrame sobre Joyce Não vá achando que é o escritor irlandês. Ela tinha bafo, nosso beijo não se encaixava. Branca e magra, daquelas sem bunda, fazia chapinha. De cintura e canelas finas, mas com peculiar senso de humor. Evangélica, se &#8230; <a href="http://dozes.wordpress.com/2011/06/26/venus-oposto-saturno/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=dozes.wordpress.com&amp;blog=13327426&amp;post=1246&amp;subd=dozes&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="text-decoration:underline;color:#000000;">Beltrame sobre Joyce</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Não vá achando que é o escritor irlandês. Ela tinha bafo, nosso beijo não se encaixava. Branca e magra, daquelas sem bunda, fazia chapinha. De cintura e canelas finas, mas com peculiar senso de humor. Evangélica, se vestia de modo pouco, ou quase nada, elegante. Joyce não quis ceder no sexo porque isso ia contra a doutrina, e ela era muito temerosa. Era batizada e temia o peso da mão de Deus. Até que na época rolava umas brincadeiras, pra lá de exóticas e inconvencionais, por exemplo: só permitia chupá-la com a calcinha por cima, não sabia eu, ali, diferenciar saliva de lubrificação, era como uma barreira intransponível de modo a evitar assim a tentação de não resistir aos desejos da carne e sucumbir ao pecaminoso ato de ser penetrada? Só sei que ela foi forçada a não suportar o fardo da consumação antes da lua-de-mel. Quer dizer&#8230; Foi o que fiquei sabendo.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Com data de casamento marcada, deu a contragosto para o noivo, também evangélico, coagida por sua impaciência, num motel de beira de estrada. Ratoeira premeditada. Ele com o carro. Ela, indefesa, no meio do nada. No quarto, ele metia dez bimbadas, ela pedia desculpa, ia até o banheiro da suíte, se sentia suja, trancava a porta e chorava um pranto abafado, sem se preocupar em borrar maquiagem, mesmo porque, nem a este tipo de vaidade podia dar ao luxo de se submeter. Joyce tornava a abrir a porta do banheiro, indefesa. para mais outras séries de bimbadas. Pedia pra parar. Doía. Se trancava de novo. Chorava. O choro de quem peca. Ou acha que peca.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Soube, recentemente, que está para subir ao altar embuchada desse tal noivo. Coitada. Pecou, e agora é malvista na própria igreja, terão de trocar por outra denominação, ou casar no cívil. Sem direito a festa nem porra nenhuma, tomou surra dos irmãos mais velhos, não de fé, mas biológicos, fanáticos e machistas. Foi feio. Ficou até com o olho roxo (não fez boletim de ocorrência), porque é uma baita ignorante, por pouco não perdeu a criança num aborto espontâneo, de estresse, disseram. Com a tal da dignidade na lama, e do jeito que bem a conheci, deve estar, nesse momento, morrerendo de medo ir pro inferno, quando morrer. Qualidades? Toca violão e cantava muito bem, poderia enriquecer como cantora Gospel. Nome já tem, e esse mercado é enorme. Defeitos? Bom, além de fazer chapinha ela cozinhava mal pra cacete, nem miojo escapava. Apesar de morar no subúrbio, sequer sabia fritar um ovo, até em fogo alto, a gema nunca ficava uniforme no meio da clara, sempre escorria pro canto da frigideira. Um horror. </span></p>
<p><span style="text-decoration:underline;color:#000000;">Tadeu sobre Fabia </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Agora, não chegamos a namorar de fato, mas perdemos a virgindade num jogo Brasil e Itália, jogo importante, de copa do mundo. Galvão Bueno se lamuriava pelo fiasco brasileiro enquanto eu retirava meu pau sem camisinha, empapado de sêmen e sangue. Tinha 16 anos. Precipitado, eufórico e realizado. Ela, ensimesmada, de ladinho, parecia que ia chorar, tava pálida. O babaca aqui tinha esquecido de trancar a porta do quarto. Por sorte, estávamos debaixo das cobertas quando minha boa-madrasta entrou e nos entregou, sem a gente pedir, é claro, uma garrafa de coca cola junto de um balde cheio de pipoca. De longe, mais temperada do que aquela primeira transa. Mastigamos em silêncio. Sentados, lado a lado, um com vergonha do outro. O Brasil perdou aquela copa. Eu perdi a virgindade.</span></p>
<p><span style="text-decoration:underline;color:#000000;">Wagner sobre Maitê </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Nossa diferença de idade beirava o grotesco. Ela, com quatorze, mas enganava, heim, e muito, muito bem. O corpo, já formado, equivalia à uma garota da minha idade na época, ou seja, vinte e um anos. Branca e bunduda. Loira, boca carnuda, voz rouquinha, mas, infelizmente eclipsada pelo uso desmedido de diminutivos. Uma digna piriguete. O que em vez de repugnar, me dava muito, mas muito tesão. Amiga da minha irmã, morava sozinha com a avó num sobrado enorme. Contou que conviveu com leucemia dos cinco até os dez anos de idade. Se curou. Menos, é claro, daquele péssimo gosto musical. Nada culta. Mas metia, puta que pariu, feito uma égua no cio. Por ironia, assim como eu, é sagitariana, metade mulher metade cavalo. Antes de cada trepada brincávamos, um inventava um nome inusitado para o outro. Um dia, não sei por quê, passou a me chamar, com frequencia, durante as transas, de Gilvan. Perguntei se esse cara realmente existia. Ela jurou que não. Morri de ciúme e fiquei paranoico. Depois desencanei. Sexo e beijo eram bons demais para pôr tudo a perder com ciumeiras idiotas, afinal, quem tinha idade infantil era ela. Não eu.</span></p>
<p><span style="text-decoration:underline;color:#000000;">Eder sobre Tábata</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Morena, queimada pelo sol, filha de pai policia e mãe dondoca de classe média-baixa. Bicos e mamilos escuros, boceta arroxeada. Conheço homem que se sente incomodado com esse tipo de característica. Eu e boa parte dos moleques do prédio adorávamos, vixe maria. Só que tinha um problema: ela não abria os olhos durante a transa, de jeito nenhum. Não te encarava. Culpa? Vergonha? Duvido. Até anal fazia. Mas, abrir os olhos de cima, aqueles olhos expressivos, castanho-esverdeados, jamais. Nunquinha.</span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/dozes.wordpress.com/1246/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/dozes.wordpress.com/1246/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/dozes.wordpress.com/1246/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/dozes.wordpress.com/1246/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/dozes.wordpress.com/1246/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/dozes.wordpress.com/1246/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/dozes.wordpress.com/1246/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/dozes.wordpress.com/1246/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/dozes.wordpress.com/1246/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/dozes.wordpress.com/1246/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/dozes.wordpress.com/1246/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/dozes.wordpress.com/1246/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/dozes.wordpress.com/1246/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/dozes.wordpress.com/1246/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=dozes.wordpress.com&amp;blog=13327426&amp;post=1246&amp;subd=dozes&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Tristes verdades</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Jun 2011 18:54:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>William</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No fundo, toda viúva ou viuvo se sente tocado pela sorte quando o outro se foi, e pensa, secretamente: antes ele, do que eu.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=dozes.wordpress.com&amp;blog=13327426&amp;post=1226&amp;subd=dozes&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#000000;">No fundo, toda viúva ou viuvo se sente tocado pela sorte quando o outro se foi, e pensa, secretamente: antes ele, do que eu.</span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/dozes.wordpress.com/1226/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/dozes.wordpress.com/1226/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/dozes.wordpress.com/1226/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/dozes.wordpress.com/1226/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/dozes.wordpress.com/1226/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/dozes.wordpress.com/1226/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/dozes.wordpress.com/1226/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/dozes.wordpress.com/1226/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/dozes.wordpress.com/1226/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/dozes.wordpress.com/1226/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/dozes.wordpress.com/1226/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/dozes.wordpress.com/1226/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/dozes.wordpress.com/1226/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/dozes.wordpress.com/1226/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=dozes.wordpress.com&amp;blog=13327426&amp;post=1226&amp;subd=dozes&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Diário de Aniversário, 12 de junho</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Jun 2011 18:07:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>William</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Apesar do Valium 10mg ser o penico onde mija-se o pânico, agradeço a caixinha que ganhei de presente de um amigo, anteontem, a meu pedido, é claro. De onças, só aprecio a cédula. O remédio vai durar anos, vence em &#8230; <a href="http://dozes.wordpress.com/2011/06/14/diario-de-aniversario-12-de-junho/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=dozes.wordpress.com&amp;blog=13327426&amp;post=1212&amp;subd=dozes&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#000000;">Apesar do Valium 10mg ser o penico onde mija-se o pânico, agradeço a caixinha que ganhei de presente de um amigo, anteontem, a meu pedido, é claro. De onças, só aprecio a cédula. O remédio vai durar anos, vence em 2015, e será utilizado só nos momentos críticos e de extrema tensão. Ou seja, na verdade, os trinta comprimidos irão acabar logo logo. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Tia Valéria quebrou o protocolo e não me telefonou pela primeira vez em anos constantes. Motivo: brigamos feio há poucas semanas. Disse a ela jamais tornar a pisar os pés naquela casa. Nosso defeito: o orgulho típico aos rancorosos. Naquela fatídica ocasião roguei pragas bêbadas das quais, depois, me arrependi, mas ainda não telefonei para pedir desculpas. Chamei-a de fanática, carola religiosa, bom, é melhor do que puta. Coisa que ela não é. Nunca foi, a não ser dentro das quatro paredes, com meu querido tio Dindoca.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Deixei meu celular desligado um dia antes do meu aniversário para não ter de receber logo pela manhã ligações das quais evito e costumam me deixar daquele jeito sem jeito. Foi bom. Acordei às três da tarde. Aproveitei que não havia ninguém pela casa, e li bastante. Pelado. Na rede que instalei na sacada. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Hoje segunda-feira, dia 13. Ressuscitei o celular. Haviam algumas mensagens de voz. Tentei ouvi-las mas a operadora não concedeu felicitações. Estou sem créditos. Mistério.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Em casa, tampouco estavam presentes os embrulhos com presentes espalhados em pontos geoestratégicos, como acontecia na infância. Duma coisa tenho certeza, é complicado virar gente grande. Cruel crescer e carregar o peso do mundo em meus ombros largos, cifose que aniquila e gera progredida corcundice velhaca. Nasci velho, como é de condizer naqueles que carregam o peso de um saturno carrasco e aniquilador chicoteando nervos.</span></p>
<p><span class="Apple-style-span" style="color:#000000;">Ô, Goya. Ô, Goya. Glória Deus.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Pelo menos uma boa notícia: e</span><span style="color:#000000;">stou com tártaros nos dentes. Eles começam a espalhar-se por toda </span><span class="Apple-style-span" style="color:#000000;">boca e as gengivas doem, mastigar pães tem sido aquele parto. Mas jamais renderei aos caprichos de qualquer sopa, mingau, pamonha, curau ou cruzes, gelatina. Quando escovo os dentes, as cerdas ficam empapadas de sangue, o antisséptico bucal arde horrores, mais do que de costume.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Duvido que resolverão. De todo modo, serei obrigado a ir ao dentista retirá-los. Médicos, dentistas e cabeleireiros só os frequento em último caso. Uma amiga disse que só mendigos têm tártaro. Este ano, contrário ao praxe que estou habituado nesta data, infelizmente, não ganhei beijos na boca. Se saísse de casa ou tivesse deixado o celular ligado, quem sabe.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Para elevar os ânimos ao teto do inferno, que dizem, ao invés de lá se chamar pé-direito, é denominado por arquitetos do apocalipse como pé-esquerdo, a Folha de São Paulo não me pegou como estagiário porque meu nome está sujo no SPC. Apesar de tal atitude adotada pela corporação, ser imoral e preconceituosa, não lhes processarei, mas já decidi: irei cancelar a assinatura. Mudar pro Estadão. Vingança besta. Rancor infantilizado. E daí?</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Minha situação anda tão crítica que estou mais otimista com o progresso econômico de São Tomé e Príncipe ao invés do meu. Queria ter ganho um buraco negro de presente de aniversário neste último dia dos namorados, para modo de eu me enfiar nele. E sumir.</span></p>
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		<title>Genética</title>
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		<pubDate>Fri, 27 May 2011 16:27:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>William</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[O prato preferido de Gonçalves Duarte de acordo com sua cozinheira é bife à parmegiana com purê de batatas, fritado com pouco óleo e acompanhado de muito azeite. Um prato simples, assim como sua infância donde ele e a mãe &#8230; <a href="http://dozes.wordpress.com/2011/05/27/genetica/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=dozes.wordpress.com&amp;blog=13327426&amp;post=972&amp;subd=dozes&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#000000;">O prato preferido de Gonçalves Duarte de acordo com sua cozinheira é bife à parmegiana com purê de batatas, fritado com pouco óleo e acompanhado de muito azeite. Um prato simples, assim como sua infância donde ele e a mãe dividiam o pequeno quarto na casa da patroa, gorda, que racionava alimentos além de fartar-se gulosamente na frente dos empregados sem oferecer-lhes tampouco às sobras, fazia questão de ela própria jogá-las no lixo, após palitar os dentes. </span></p>
<p><span class="Apple-style-span" style="color:#000000;">Entre outras penosas restrições, Duarte e a mãe viviam num estado de semi exploração.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Entretanto, sua inteligência mostrava-se evidente desde a meninice. O primeiro emprego foi de ajudante numa mercearia da qual a mãe fazia compras, o dono, vendo a ignorância ingênua da mulher, tentara enganá-la ao subtrair o troco numa despesa, nas raras vezes que lá comprou ela sempre pagou à vista, de imediato, o filho, ligeiro, apontou para a cifra correta sem qualquer desembaraço, fazendo o velho português engolir seco e desculpar-se pelo equívoco, ele, não menos admirado, resignara-se e tornou a contratá-lo como ajudante naquela mesma semana. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Antes de o ralo bigode firmar-se na comissura da boca, Duarte rebelava-se contra o início de vida dura e dificultosa, muito trabalhou e enriquecera à custa de inúmeras privações esforços e noites de sono perdidas e, quando completou trinta e sete anos já poderia se enquadrar ao que chamam de novo-rico, dotado de toda larga folga e desmedidos requintes que a nova situação imprime a cabeças de gostos frívolos e personalidade amarga e ressentida, pavoneou-se em gastos como forma de vingança, de deliciosa vaidade. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Dois generosos pedaços do melhor corte uruguaio não bastavam para saciar a gula, hoje intempestiva assim como os longos anos de casamento além da clara impaciência familiar. Burguês típico, dentes amarelados, portentosa pança, leve grau de insônia e arritmia cardíaca e amantes. Sim, as meninas pela qual ele organizava festinhas particulares em flats pouco se importavam com tal estética asquerosa entre pintas com pêlos, ranço na pele e mal hálito &#8211; contanto que a luxúria perdurasse a madrugada toda e fosse paga com juros e mimos. Vantagem ganhar a noite sem perigar na rua, dizia, livro as garotas do sofrimento uma vez por semana, não gosto de fixar com puta de luxo, são ladras, te levam a ruína. Pretendia montar garçonnière, mobiliada, se topassem, coisa pela qual não duvidava, deixaria morar. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Duarte gostava muito das garotas, já habituadas à megalomania atípica que não entrarei em maiores detalhes de acordo com o que ele me narrava entre goles de café portenho no seu amplo escritório localizado num moderno prédio comercial da Berrini. </span><span class="Apple-style-span" style="color:#000000;">Duarte apreciava sua imagem associada ao poder. Sobre a mesa repousava seu revólver Taurus, cromado. Talvez nunca usado, a não ser como alegoria intimidadora para quem o visitasse, na maioria pobres coitados endividados, muitos tendo somente o suicídio como contracheque. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">As reuniões fixadas em agenda eram feitas noutro anexo. Paralelo ao ramo de gerar uma rede de concessionárias de carro importados lucrativa, Duarte também investia na agiotagem, ramo este que lhe ascendeu financeiramente. Eu era seu assessor financeiro majoritário nos dois negócios, ele estimava a técnica com a qual lidava e resolvia problemas, nada ocasionais. Além de ser assessor e executar transações e tarefas sigilosas, também fui encarregado de pagar os boletos de seus cartões de crédito, longe aos siameses olhos cinzentos da esposa, fútil e preguiçosa. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Já viu alguém preguiçoso dessa raça? Não existe. Só ela. Ele dizia.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Tinha único filho, Mário, mestiço, já que sua mulher descendia de japoneses que imigraram no início do século vinte para o Brasil, no navio Kasato Maru. &#8220;Traia a confiança deles e jamais será perdoado, são orgulhosos, moralistas e filosóficos, conhece aquela do lago? Se vir alguém se afogando, mesmo que seja amigo ou parente, jamais pule para salvá-lo, eles lhe afundarão para se safar&#8221;.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Cumpria, sim, ao contrário da maioria de seus amigos, obrigações matrimoniais sem se lastimar. Mas, a ruptura em relação aos modelos paternais era defeituosa, distante, fria. Mário passara entre os primeiros num curso concorrido na mais conceituada universidade da América Latina, quando soube da notícia Duarte não demonstrou qualquer indício de comoção ou alegria. Alto, de ombros largos e elegantes, Mário herdara a beleza recatada e fala pausada da mãe, a altivez dos seus passos enérgicos atrelada a ótima forma física o levou a ser recrutado no serviço militar obrigatório aos dezoito anos. Serviu na Marinha, por dois anos, em Santos. Lá, além de conhecer o bairro em que vivera seus antepassados e ter se envolvido com algumas caiçaras interesseiras não perdia, quando tinha licença, os jogos do Palmeiras na Vila Belmiro. Somente neste apaixonado aspecto possuía similitude junto ao pai. Brigavam muito, por qualquer trivialidade que fosse, um volume de música ecoando nos quatro cantos do duplex ou visões opinativas opostas indexavam calorosas discussões com quase sempre a porta do elevador ou quarto fechadas aos solavancos.</span></p>
<p><span class="Apple-style-span" style="color:#000000;">Injúrias e estardalhaços. </span><span class="Apple-style-span" style="color:#000000;">Somente o futebol os aproximava democraticamente.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">A primeira discussão que presenciei entre os dois foi após a quarta feira de cinzas, no escritório, ano retrasado. Mário havia pego o BMW numa das concessionárias do pai sem sua permissão, para viajar com a namorada, viagem esta adiada antes mesmo de saírem das imediações da cidade, o carro, guiado por ele, numa mudança de faixa mal calculada, apesar da pista encontrar-se escorregadia devido à chuva, entrara debaixo de uma grande carreta frigorífica, na Marginal Tietê. Perca total. Mário, tirante o susto, pouco sofrera, aconchegado pelo airbag. Sua namorada não teve a mesma sorte, o airbag dianteiro chegou a ser ativado, mas logo estourou, deixando feias escoriações em seu rosto. </span></p>
<p><span class="Apple-style-span" style="color:#000000;">&#8220;Um milagre de nosso senhor Jesus Cristo&#8221;, eram as palavras de sua sogra no culto televisionado, testemunhando para os fiéis de sua igreja o livramento pelo qual a filha teve. Dentre inúmeras discordâncias, Duarte assentia com o relacionamento do filho. Não agia como patriarca clássico, mas no íntimo apreciava a ideia de netos, em suma, herdeiros. Estava envelhecendo e prentendia deixar o legado da consanguinidade. Ainda mais com a sogra de Mário, bispa duma igreja neopentecostal com ramificações nas principais cidades do planeta &#8211; mesmo a grande gama de fiéis advirem de imigrantes brasileiros lá radicados.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Ela e o marido detinham a fortuna de um império colossal, composto por emissoras de rádio, canal próprio na tevê fechada e horários nobres comprados para retransmissão em canais da rede aberta. Manhã, tarde e noite. Principalmente à noite. Já que a madrugada compõe alguns tipos de seres, entre eles, viciados, aflitos e insones no funil da atribulação.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Muito me admirou, naquela briga após o acidente, a eloquencia argumentativa de Mário que mesmo exaltado com as farpas humilhantes, até excessivamente desnecessárias e cruéis, proferidas pela boca do pai, vermelho feito camarão, soube se manter firme. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Sua postura e mentalidade rápida, incisiva diria, para se defender daqueles ataques era implacável. O garoto, rapidamente se tornaria grande advogado em qualquer área que porventura atuasse. Nos longos anos de experiência pude presenciar poucos profissionais daquele quilate. </span><span class="Apple-style-span" style="color:#000000;">Mário nascera, sem dúvida, para aquilo. Sua magnitude ao rebater, contra-argumentar Duarte, confesso, me causou certa inveja. </span></p>
<p><span class="Apple-style-span" style="color:#000000;">Toda inveja é admiração enrustida, claro, e cheguei a remoer por semanas a probabilidade de idealizar, propor ao Duarte o vislumbre de uma futura associação, firma, consultoria, o que fosse, tendo Mário trabalhando conosco nessa empreitada alçaríamos voos altos, mas logo descartei tal meta, considerei tola a ideia. Não bastasse pai e filho se detestarem, Duarte abominava os tentáculos da justiça, me contratara apenas pela minha fama e pericia em agir nas situações de alto risco e outros trâmites do <em>métier</em>, no fundo, me detestava, repudiava juízes, promotores, advogados e até escrivães, os qualificando a uma espécie de choldra necessária.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Mas o espanto causado pela autodefesa de Mário, naquele dia, logo caiu por terra. Uma das qualidades entre as quais Duarte mais valorizava era a frieza, o emocional não pertencia de modo algum a sua esfera racional. Evidente que sua consciência sabia das centenas de famílias que o ramo da agiotagem contribuiu para o detrimento, e total aniquilação. O pranto do filho impotente no escritório, garanto, incomodou Duarte acima de tudo. Mário saíra da sala com lágrimas pelo rosto. Cabisbaixo, humilhado. Derrotado?</span></p>
<p><span style="color:#000000;">É uma noite de quarta-feira importante para os dois. Palmeiras disputa a vaga para a semifinal da taça Libertadores da América, sentados na moderna e equipada sala de tevê, eles acompanham atentamente os lances até então mornos do jogo. Logo nos primeiros vinte minutos o time adversário marca de jogada ensaiada. Duarte xinga com gosto, considerando aos brados o lançamento impedido. Mário rói unhas e morde a parte lateral dos dedos quando estas acabam e nem nota quando o pai lhe olha talvez buscando uma aprovação ao que acabara de julgar. Perto do final do primeiro tempo o timo adversário parte, livre, para o contra-ataque, de fora da área, o lateral-direito chuta a bola com efeito e precisão, ela rebate na trave e volta aos pés do zagueiro do time adversário, que desesperado a joga bem longe dali. Nesse momento as batidas do coração arritmado de Duarte oscilam imperceptíveis como estrelas cadentes acima do céu poluído. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">O jogo vai para o segundo tempo, a estratégia muda e o time adversário sente-se acuado pela guinada ofensiva do novo esquema tático. Basta o empate para o Palmeiras passar à próxima fase. Aos 34 minutos, numa cobrança de escanteio, sai o gol. De cabeça. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Pai e filho pulam do sofá, extasiados, abraçam-se e gritam de alegria. Debby, a yorkshire da família, tão habituada a discussões começa a latir enquanto eles comemoram, e morde o tornozelo de Duarte. Que a chuta logo em seguida, feito bola. Lá fora os rojões não cessam. Após o término da partida, ambos sobem a escada de corrimões, breguíssimos, banhados a ouro, sem esboçar boa noite. Entretanto, cada um dormiu e acordou feliz &#8211; no dia seguinte.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Tampouco Duarte, talvez Mário, mas menos ainda a mulher conheça a curiosa genealogia nipônica da qual pertencera seus ancestrais. Pesquisei por pesquisar seu sobrenome e deparei com fatos bem relevantes. Ela descendia duma linhagem de gerações e gerações pertencentes a samurais que serviram na guarda imperial. Alguns, considerados heroicos lograram-se em louros, outros, em minoria, foram assassinos sanguinários, saqueadores expulsos do clã ou tidos como prisioneiros inimigos em campos de batalha. Muitos deles cometeram Harakiri, conhecido também como Seppuku. Um método de suicídio comum, praticado por várias razões. Uma das quais ocorria caso o samurai fosse capturado; a vergonha pela desonra era vista com enorme desprezo e ofensa ao caráter, por isso, muitos se ajoelhavam e introduziam a lâmina de punhais ou espadas, num corte preciso no lado direito da barriga, até as vísceras transbordarem para fora. Um ato de profundo heroísmo, mas altamente lento e doloroso. Além disso não podiam demonstrar qualquer traço de sofrimento. </span><span class="Apple-style-span" style="color:#000000;">Decepcionado, não pude ir a fundo, pois as fontes não eram lá numerosas. </span></p>
<p><span class="Apple-style-span" style="color:#000000;">O mais recente caso de Harakiri não convencional, ocorrera em meados de 1990, um tio-avô de Mário se viu envolvido num escândalo exaustivamente noticiado, apontado entre os acusados de desfalque, na multinacional em que trabalhara em Osaka, no paradoxo da honestidade, ele pagara a conta do terraço-restaurante e de lá se jogou, despencando trinta e dois andares abaixo, transformado num bolo irreconhecível de carne pelo asfalto, chegou a sujar as vitrines de uma loja de grife.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Naquele fim de tarde entrei sem bater no escritório de Duarte porque a porta encontrava-se aberta, sinal de receptividade e bom humor. Não vi o revolver sobre a mesa e estranhei. &#8220;Não soube? Alguém furtou, mecânico ou faxineiro da concessionária, só pode, pra fazer assalto ou, no máximo bico de segurança por ai&#8221;. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Começamos a discutir a ameaça de processo judicial feita por um cliente inadimplente caso Duarte se recusasse renegociar a dívida, baixando os juros, afrouxando-lhe a corda do pescoço. A chance de ele acatar o pedido era escassa, para piorar, o cliente mostrara-se desesperado na última visita, quando teve sua solicitação para o abatimento negada, levantou a voz e berrou grosserias e ameaças. &#8220;Mimado. Deve ter sido criado pela avó, o idiota&#8221;, Duarte disse após o cliente ter deixado a sala. Claro que se vingou, indeferiu todos os possíveis acordos do infeliz. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">O expediente havia acabado e àquela altura restávamos sozinhos no andar, além de sua secretária, Joana. Que nos interrompeu quando íamos começar a conversar sobre outro caso. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">&#8220;Fala&#8221;,  Duarte apertou o botão do viva-voz. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">&#8220;Seu filho está na linha, é urgente&#8221;.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">&#8220;Diga que retornarei daqui a uma hora&#8221;.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Ele alisa os papéis que lhe entreguei, atento, confere a a hora no Le Coultre, e se ajeita, pensativo. Demora a decidir-se quando o cliente é mulher. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Seu celular toca. Resmungando, hesita atender, desliga o aparelho e reclama de sempre esquecer o hábito de botar no modo silencioso. &#8220;Estenda o prazo e congelo o juro&#8221;. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Em algum ponto da cidade, Mário anda em círculos quando interrogado pelo comissário de trânsito com a prancheta na mão. A lataria frontal do automóvel se chocou contra o poste. Por um instante o comissário suspeita que Mário tenha consumido álcool, logo descarta tal possibilidade. A poucos metros, na mesma calçada, há um bistrô aberto, Mário, como se se dirigisse a um superior nos tempos de Marinha pede permissão para dar um telefonema ali. No banheiro, dentro do biombo, retira o celular do bolso e liga para o escritório do pai. Sem delongas Joana lhe avisa que a ligação será retomada em 1h. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Impaciente, ele busca na agenda o número do celular do velho. </span></p>
<p><span class="Apple-style-span" style="color:#000000;">Abaixa a tampa e senta-se na privada. Liga novamente. Desiste e torna a ligar para Joana que, sagaz, nota o tom perturbador e desta vez transfere a ligação, direto.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">&#8220;Fala&#8221;</span></p>
<p><span style="color:#000000;">&#8220;Pai?&#8221;</span></p>
<p><span style="color:#000000;">&#8220;Mário, liga depois, não posso agora&#8221;</span></p>
<p><span style="color:#000000;">&#8220;Bati o carro de novo, pai, desculpa&#8221;</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Resta-se tempo para mais nada. No viva-voz ouve-se o barulho seco, de um tiro.</span></p>
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		<title>Roleta</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Apr 2011 17:11:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>William</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Digo para meu irmão menor que naquele momento, rir para mim é um privilégio, um luxo. O dia amanhece céu madrepérola na janela escancarada, agradeço a companhia dele, ao longo do começo da madrugada até ele desabar de sono. Pode &#8230; <a href="http://dozes.wordpress.com/2011/04/12/roleta/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=dozes.wordpress.com&amp;blog=13327426&amp;post=1125&amp;subd=dozes&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#000000;">Digo para meu irmão menor que naquele momento, rir para mim é um privilégio, um luxo. O dia amanhece céu madrepérola na janela escancarada, agradeço a companhia dele, ao longo do começo da madrugada até ele desabar de sono. Pode ir agora, você já me aturou demais, falo, abrindo a porta do meu quarto, com o mesmo cansaço de um psiquiatra octogenário.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Sem sono, procuro coisas que não encontro, reviro papéis antigos, tiro a samba-canção e me olho pelado no grande espelho, estou abaixo do peso. É outono, ou ao menos começo de. Desço até a cozinha e faço chá pois quero muito dormir. Há algum tempo não dou as caras na faculdade. Agora percebo e me arrependo de tudo o que confidenciei à meu irmão, ele é uma pessoa invejosa e cega. Estou angustiado, suorento, feio, ensimesmado, sozinho e débil. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Ligo a tevê matutina enquanto espero a água ferver e logo perco a paciência. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Com agonia, concluo que estou lúcido num corpo exausto &#8211; se sou macho para cafungar serei hombre pra suportar a danada dessa abstinência sem o luxo de baseadinho ou apaziguamento de valium. </span><span style="color:#000000;">Tive um amigo que na mesma situação que travo nesse momento, se ajoelhou nu sobre cama com uma tesoura de costura, daquelas grandes e antigas, apontada para o pescoço pronta para cortar a carótida, num súbito relampejo a mãe chamou por ele, da cozinha, fazendo-o desistir. Mas não acreditei  quando ele contou. </span><span style="color:#000000;">O cara mentia muito.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Esse chá causou um rápido rebuliço no meu estômago, concluo, sem vontade de vomitar. Há mais de quarenta e tantas horas não me alimento nem durmo. Se fosse santo daime ou kambô, ao menos. Mas os pajés genuínos já não existem, não neste mundo afobado e umbiguista. Ou atépode haver, se pá, numas dessas tribos esquecidas e não catalogadas pela Funai. A Nike, o álcool, o asfalto, o minério, a coca, os puteiros de vilarejos, o satélite, corromperam a população indígena,  um povo vilipendiado, subserviente ao próprio orgulho. Ingênuo. E quem liga?</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Lembro de Inaiê, uma indiazinha pra lá de urbana que se apaixonou por mim &#8211; e eu por ela &#8211; nessa ordem, lá pelo começo do século vinte e um, melhor amiga, gabava-se ela, de uma antiga namorada, daquelas que tem fotos juntas, tiradas nas reminiscências da infância, primogênitas na inconteste arte de descobrir o tenro prazer em masturbarem-se uma a outra debaixo de um edredom estampando várias figuras dos 101 Dálmatas. É.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Inaiê pedia para buscá-la na porta da escola, nunca fui. Ao meio-dia eu estava dormindo. Notívago que sempre fui, desde o berço. Minha mãe achava estranho depois de seguir o ritual de amamentação, àquele ser miúdo, ali, sempre de olhos bem abertos a qualquer hora do dia ou da noite. Que só chorava por cólica ou dor de ouvidos e era dado a mijar, certeiro no esguicho, nos rostos das tias mais feias e buçudas que ousassem trocar a fralda &#8211; de pano e reutilizável, colada com fita crepe.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Às vezes, para minha tristeza &#8211; poucas vezes, eu acordava com Inaiê à beira da cama, chacoalhando meu calcanhar. Sapeca e clandestina a ponto de fazer meu típico mau-humor dissipar-se num átimo enquanto, atrevida e uniformizada com calça tactel, rumava no abismo da minha cama e lascava aquele beijo determinado e profundo numa boca bafenta, recém desperta da mumificação do sono. A ninfa-morenice, marquinha de biquíni, láctea. Adepta das calcinhas rosas, boxer. Aquela bocona peregrina pelo corpo, que perguntava já sabendo a resposta &#8220;Quem é melhor, eu ou ela?&#8221;</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Inaiê se tornaria no futuro, digna do título rainha da bateria, era orgulhosa mas desprendida da arrogância que a vaidade concede para aquelas que sabem-se belas. Mas, ali, ainda era uma menina prestes a ser mulher, porém, ia desde já ensaiando os ecos de sua totalidade. &#8220;Eu ou ela?&#8221; repetia, maquiavélica, boca colada no ouvido, &#8221;Você, você, você&#8221;. Depois me beijava com gosto &#8211; ora de tang sabor uva ora chiclete, uma vez senti gosto de paçoca, e se trocava apressada, sem se limpar nem nada dizer.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">2.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Ainda sem dormir, já passa das onze da manhã, decido visitar Xexeu, meu único colega homossexual. Ao menos, o único assumido. A mãe dele quando me vê, manda entrar. Agradeço o convite para o almoço, estou sem fome. Xexeu está de pijama, olhos marejados da vermelhidão da maconha recém fumada. Ele sabe o que quero. Diz para eu esperá-lo, que vai tomar banho. Cantarola Rihanna. Ao sair, já trocado, demora-se muito na escolha dos acessórios, numa absurda vaidade mais do que feminina, se maqueia, camufla as olheiras. Brinco que ele leva mais tempo que minha irmã mais velha. É verdade. Ele ri. Xexeu é um dos meus bodes expiatórios, talvez ele saiba disso ou fingi não saber, isso não importa. O negócio é que ele gosta de dar uns tiros, e é exatamente por isso que o visitei.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Quero mais. Não canso de querer mais. Pra tudo.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Atrás de um colégio estadual degradado, numa ruela estreita, entrego setenta reais, pega cinco pra mim, fica com o resto, falo. Ele nem se importa com o dinheiro amassado. Saio da ruela e atravesso a avenida, paro num ponto de ônibus. Ele não demora.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Toma seu B.O, diz Xexeu, sonolento.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">3.  São cinco da tarde, ela não me liga, existe uma mensagem de voz no celular mas não possuo crédito para escutá-la. Vai ver é melhor assim. Ontem disse para ela que torcia muito para que encontrasse outra pessoa e me esquecesse de vez. Fui sincero. Ela pediu para eu medir bem minhas palavras, mas depois falou, soturna: &#8220;seu desejo é uma ordem&#8221;. Offline. Garotas esteriótipos, lugares comuns. Eu sempre me arrependo.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">4. Na rua sinto que estou sendo seguido por um corsa verde musgo, com dois manos dentro. Ou será paranoia do pó? Duvido. Eles estacionam o carro perto de mim, poucos metros adiante. Resolvo entrar na cabine de um telefone público, finjo ligar para alguém. Estou muito acelerado. Depois noto que o corsa já foi embora. Entro numa mercearia e peço para senhora oriental uma lata de coca-cola. Ela está no caixa. Pede pro filho trazer. Entrego o dinheiro, minhas mãos suam e tremem, tento disfarçar, recebo o troco. O japonês entrega uma latinha de Dell Valle, suco de pêssego, &#8220;é coca-cola&#8221;, corrijo sem parecer arrogante. Ele sorri e se desculpa dizendo que as cores são iguais. Digo obrigado e saio. Ele não retribuí o obrigado.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">O que gosto em São Paulo é que o povo daqui é arrogante e não age no cinismo, não temos falsa modéstia. Acho fascinante. Na calçada, alguns metros à frente da mercearia, um grupo de homens-amebas de frente a uma loja de som automotivo atulha a passagem, conversam. Será que vão me impedir de passar? Forço o passo e eles abrem caminho, mas antes, sabia, escuto o brutamontes, um alemão com cara de leitão, dizer algo como &#8220;esse aí tá bem loco&#8221;.</span></p>
<p><span style="color:#000000;"><span style="color:#000000;">Lembro do iPod, 160 gigas, 40 mil músicas, ponho no shuffle, alucinado vou trocando com o dedo por fora do bolso da calça, pra não chamar atenção, num depravado medo burguês . Todas as músicas me irritam.</span></span></p>
<p><span style="color:#000000;">5. Chego na faculdade mais cedo que o habitual. Quarta-feira. Estranho, mas ela fervilha. Uma mucosa de pó amargo com catarro atola minha garganta, resistente e teimosa, como uma lacraia venenosa. Compro água gelada e vou ao banheiro do primeiro andar, ele fede. Sinto náuseas. Desisto. Uma mulher me pára, faz propaganda de um banco espanhol, tenta me convencer a abrir conta universitária, nessa eu não caio, penso. ¿Por qué no te callas?</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Entro no elevador. Um professor gordo de voz afeminada carrega uma pasta de couro, diz para mim e outra aluna que essa quarta-feira tá com cara de sexta. Concordo com a cabeça. Para mim todos os dias são iguais, penso. Desço no sétimo andar e entro no banheiro. A demora do mijo me impacienta. Despejo três fileiras em cima do rolo metálico que protege o papel-higiênico. Estou feliz. Felicidade fabricada, artificial. Mas mesmo assim é felicidade. Entro na sala, faltam vinte minutos para o início da aula, mas as meninas já estão ali, futricando. Quando me vêem a conversa pára. Dizem que estou pálido, mais branco que um vestido de noiva. Isso me preocupa, mas logo desencano. Lembro de Nelson Rodrigues, elas provavelmente não devem saber quem foi ou tampouco se interessam. Então entro no jogo delas e começo a matraquear, as faço rir. Riem, mesmo sabendo que há algo errado em mim. Não paro de falar. Jéssica não se aguenta, e corre para o banheiro com vontade de fazer pipi. A Lorena fala que a palidez do meu rosto sumiu. Que voltei a ficar corado. Galanteio e digo que as mulheres exercem um estranho poder de rápida transformação em mim. Qualquer uma. Até mesmo as feias, como elas. Mas essa parte eu não falo.</span></p>
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		<title>post-it hepático</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Mar 2011 13:56:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>William</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[A verdadeira ressaca não é orgânica nem moral. As verdadeiras ressacas são: amorosas.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=dozes.wordpress.com&amp;blog=13327426&amp;post=1155&amp;subd=dozes&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#000000;">A verdadeira ressaca não é orgânica nem moral. As verdadeiras ressacas são: amorosas.</span></p>
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		<title>A ordem das algas</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Mar 2011 01:04:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>William</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na aula de filosofia (sim, tenho uma disciplina de filosofia) de hoje, era pra ter lido um texto chamado &#8220;Seis razões para pensar&#8221; que é uma resposta de um filósofo à questão &#8220;por que pensar?&#8221;. Era para escrever um comentário &#8230; <a href="http://dozes.wordpress.com/2011/03/23/a-ordem-das-algas/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=dozes.wordpress.com&amp;blog=13327426&amp;post=1068&amp;subd=dozes&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#000000;">Na aula de filosofia (sim, tenho uma disciplina de filosofia) de hoje, era pra ter lido um texto chamado &#8220;Seis razões para pensar&#8221; que é uma resposta de um filósofo à questão &#8220;por que pensar?&#8221;. Era para escrever um comentário sobre aquilo opa, filósofo não, ele é cientista social. Mas, enfim, o texto só me chegou às mãos hoje à tarde, era enorme. E eu estava cansada pra burro, decidi não ir à aula. Não fui, porque eu ia escrever um comentário que começava com &#8220;vou dar sete razões pra não ler esse texto&#8221;, porque achei aquilo uma merda, sabe, uma porcaria mas o pessoal ia comer meu fígado e eu estava com tanto sono. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Fiquei com preguiça e tive minha primeira falta do ano. Aposto que todo mundo ficou elogiando aquela babaquice. Era chato e eu estava sem paciência. No meu comentário, eu iria escrever aquelas minhas típicas gracinhas, ficar sacaneando, mas eu só ia me cansar mais. Só pensei em escrever um comentário parodiando o troço, escrevendo, como eu disse, &#8220;sete razões pra não ler o texto&#8221; ou &#8220;setes razões pra não pensar&#8221;, coisas assim.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Minha universidade não tem nenhuma credibilidade. </span><span style="color:#000000;">Outro dia percebi, por exemplo, que uma colega retardada escreve &#8220;experiência&#8221; com &#8220;s&#8221;, e tirou 7 em português. Como é que passou? Estou de saco cheio, sério, é um insulto contra meu cérebro, e o pior é que meu desempenho é uma merda também, estou sempre entediada, desmotivada e tudo. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">É bem verdade que estou tentando melhorar agora, um dia de cada vez, como nos alcoólicos anônimos, e estou melhorando, mas foi foda. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Estas pessoas acabam comigo porque sou muito ansiosa, aí todo dia antes de sair de casa, penso: </span><span style="color:#000000;">&#8220;calma, faz o que tem que ser feito e ponto final&#8221;, e ainda o cara que eu gostava, apesar de ser um bebum imbecil metido a transgressor, começa a namorar com aquela riponga lá, e meu transtorno obsessivo-compulsivo triplica, cheguei a um ponto em que ficava uma hora lavando as mãos, duas horas tomando banho (gastava um sabonete inteirinho a cada banho), não colocava roupa se ela estivesse com um fio de cabelo, abria sempre a mesma quantidade de vezes cada porta e por fim parei de comer porque pensei que minha família morreria.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Nunca sofri tanto na vida. É sempre assim&#8230; um medo horrível de contaminação, conexões ilógicas, etc. etc. O pior, parece tudo absurdamente real, quando diminuí as manias, comecei a comer compulsivamente e engordei. Há anos sou assim. Desde pequena. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Na aula de genética de ontem a minha professora soube que o pai de outra professora morreu há meses e ficou constrangida por não ter falado nada, dito um consolo qualquer. Alguém sugeriu &#8220;manda uma cesta de doces!&#8221;, aí ela pensativa ainda, balançou a cabeça e disse &#8220;pra ela ficar mais gorda? não, não&#8221;. E essa foi a última coisa da qual ri. Estive muito melancólica, minha vida ainda anda em tons de cinza. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Existe uma ordem de algas, chama-se Charales, Cholophyta, classe Chloropyceae, se não me engano. Charales pronuncia-se &#8220;carales&#8221; mesmo. A professora de Sistemática, que é uma bruxa, falou isso bem séria, e todo mundo se cagando de rir por dentro. </span><span style="color:#000000;">Foi numa aula teórica. Na aula prática todo mundo chora. É das piores torturas. Por semana, são três aulas práticas e uma teórica dessa disciplina. A mulé se chama Elisa Caldeiras, se por acaso você esquece uma porra de um item de material, é expulso e humilhado. O mesmo acontece se você não consegue encontrar alguma coisa nas lâminas no microscópio, se boceja, se conversa, se olha pro lado, se chega atrasado, ela expulsa aluno todas as aulas, não é divertido, é assustador. Teve gente que desistiu do curso por causa dela, porque é uma disciplina pré-requisito pra um monte de coisas, e se tu não passa por ela, não tem jeito. Parece lenda, mas é fato: o marido dela, há uns 30 anos, a trocou por uma aluna, aí ela ficou pior. Faz mais ou menos uns 30 anos, eu nem era nascida nem nada.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Até que ela sempre foi bastante educada para os padrões quando vem falar comigo. É óbvio que ela não te cumprimenta, ela não faz isso com ninguém, mas ela fica dizendo bem alto quando um desenho está errado ou feio, dizendo coisas que &#8220;se continuar, vai ser reprovada&#8221; e por aí vai. Numa outra turma, uma garota foi tão xingada que saiu chorando. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Isso ela nunca fez comigo. Eu tinha um colega mó gente boa, aí ele foi dar a mão pra ela, pra cumprimentar, e ela, fria como a Sibéria , &#8220;não tenho que te cumprimentar, menino&#8221;. </span><span style="color:#000000;">Outra ficou atrasada numa prova, e ela chamou de burra, uma, fez desenho à caneta e levou a pior comida de rabo que já vi em toda a minha vida, sério, até eu fiquei com medo.</span></p>
<p><span style="color:#000000;"> Tenho pesadelos sobre isso, talvez nem chegue a concluir o curso, penso em todo tipo de humilhação na festa de formatura, do tipo estar lá, na frente dos meus pais, amigos, colegas, familiares e não ser chamada e coisas assim bizarras porque eu fui muito mal na faculdade. Às vezes acho que não vou conseguir me formar ou que vão encontrar algum problema burocrático no fim, porque burocracia é o sobrenome daquela universidade. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Fui mal porque eu estava muito mal eu andei tão deprimida que até a junta médica da federal me deu atestado médico, eu não tinha condições de sair de casa, eu estava mesmo muito mal, péssima, e o pessoal lá não perdoa. Se tu vai mal, os colegas te tratam como lixo e eu fiquei nisso, cada vez pior, vai indo, é um ciclo. Mas agora eu parei e pensei &#8220;fodam-se, agora eu lembro como é a coisa seus filhos da puta&#8221;. Vou botar aqueles merdas nos seus devidos lugares. É humilhação demais, ninguém aguenta. Comem mortadela e arrotam peru. Eu estou tentando fazer o melhor que posso porque eu não sou mais burra que eles, entende, mas é como se eu fosse. Eles sempre se acham brilhantes. Mas eu também, porque talvez eu seja mesmo arrogante&#8230; mas não suporto isso, no mínimo, são estúpidos, </span><span style="color:#000000;">são todos frios pra cacete. Eu tenho um pequeno grupo de amigos, costumo abraçá-los e tal. Mas na maior parte das vezes, com outros colegas, eles nem ao menos olham pra sua cara, é como se você fosse uma porra de um enfeite de geladeira ou uma merda assim e os professores são uns merdinhas. Eles publicam artigos e se acham Einstein. Mas são todas pesquisas vazias, sempre a mesma merda. Não há sentimento. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Tem um professor que eu admirava, mas tive aula o ano passado inteiro com ele e hoje em dia não suporto ouvir nem a voz daquele cara, ele tenta ser Carl Sagan, o divulgador da ciência, o legalzão, todo mundo adora o cara, eu adorava, mas enchi. </span></p>
<p><span style="color:#000000;">Ele é bem gordo e sua pra cacete, parece que tem três magueiras embaixo da camiseta, teve uma disciplina que tinha que apresentar seminários individuais. Bem, ele dormia em todos os seminários. </span><span style="color:#000000;">E depois, como todos os outros, criticava à exaustão o teu trabalho. Mas até aí tudo certo, nós somos mesmo treinados para isso, é o papel deles apontar pontos negativos. Tímida e deprimida, foi uma dificuldade do cacete fazer aquilo, percebi no fim das contas que fugi do tema. Mas, enfim, ficou melhor do que de muita gente, embora seja mais cômodo eu dizer &#8220;é, ficou uma bosta&#8221;, porque eu sou insegura. Mas eu tinha tomado uma caralhada de ritalinas pra poder falar em público e fiquei lá na frente blablablabla. Não ficou tão ruim, eu penso. Mas ele ficou duas horas falando do meu trabalho, o gordo. Claro, o efeito da ritalina foi passando e eu me senti um inseto, uma porcariazinha, queria mesmo morrer. Ele trabalha com neurociência, como eu queria. Mas não me vejo convivendo com ele. Ele tem alunos melhores, o filho da mãe. Fiquei meio puta quando ele fazia perguntas para mim e dizia &#8220;responde, bióloga&#8221;, ele é esse tipo de sacana, tá sendo uma merda lembrar disso.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Por que comecei a falar nisso? Que merda.</span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/dozes.wordpress.com/1068/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/dozes.wordpress.com/1068/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/dozes.wordpress.com/1068/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/dozes.wordpress.com/1068/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/dozes.wordpress.com/1068/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/dozes.wordpress.com/1068/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/dozes.wordpress.com/1068/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/dozes.wordpress.com/1068/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/dozes.wordpress.com/1068/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/dozes.wordpress.com/1068/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/dozes.wordpress.com/1068/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/dozes.wordpress.com/1068/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/dozes.wordpress.com/1068/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/dozes.wordpress.com/1068/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=dozes.wordpress.com&amp;blog=13327426&amp;post=1068&amp;subd=dozes&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O milagre do trampolim</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Mar 2011 05:49:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>William</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Estimulado por pensamentos impertinentes a ruminar incertezas resolvi alcançar o escape da rua ensolarada, repleta de gente feia, para comprar sorvete e ir ao banco. Poucas coisas são tão mecânicas quanto às filas de banco, o corporativismo tecnocrata e o &#8230; <a href="http://dozes.wordpress.com/2011/03/17/o-milagre-do-trampolim/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=dozes.wordpress.com&amp;blog=13327426&amp;post=1001&amp;subd=dozes&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#000000;">Estimulado por pensamentos impertinentes a ruminar incertezas resolvi alcançar o escape da rua ensolarada, repleta de gente feia, para comprar sorvete e ir ao banco. Poucas coisas são tão mecânicas quanto às filas de banco, o corporativismo tecnocrata e o sexo deslavado cometido no Vaticano. A bancária no guichê três, reparo, tem tendências ninfomaníacas, a cara dela confirma também alguns abortos, principalmente quando se levanta para usar a copiadora; o quadril irregular, repuxado para dentro, já disse que reconheço no ato quem fez aborto? Que tipo de vida ela leva e insiste?</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Uma vez conheci um travesti que me disse que usava uma bala calibre 38 no salto do sapato. Quando corria da polícia com pernocas longas e espaçadas, o calçamento se enchia de faísca, apoteótica intervenção urbana, pena, pois, a polícia desaprovar tal torrente desajustada, por que a polícia nunca corre, afinal, atrás dos chapas-brancas, manda-chuvas do alto escalão? Preferem ir no encalço de pobres miseráveis, viciados e famintos armados com faca, navalha e vontade de pegar o que é dos outros. Os admiro, até os vagabundos são verdadeiros benfeitores. Sempre tive o espírito anárquico, por mim enviaria toda a elite para guilhotina, mas nunca paguei boquete pro Brecht. Discutir Brecht dá dor no maxilar.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Sou pacifista, mas sem compaixão. Alguém disse que a compaixão é o reduto dos fracos. Nunca chorei na frente de mulher alguma, nem de ninguém. Nem no funeral de minha mãe. Minha ex-mulher guardava uma pistola municiada na gaveta, herança de família. Certa vez, depois de outra briga, ela disse que iria se suicidar, abri a gaveta e entreguei a peça dizendo: &#8220;faça&#8221;. Claro que não se matou. Deixei-a com a casa, a pistola e suas neuroses.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Depois do banco, comprei sorvete de pistache e voltei para casa, abatido. Tomei chá verde e fui ler um livro de contos. Perdi o noticiário do almoço, junto com a fome também. Após saber que morreria de morte pré-datada, fiquei insone, achando tudo um saco, mas ao contrário de alguns pés-na-cova, não comprei a bíblia, o  livro dos mórmons ou I-Ching.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">A morte, como o jornal, é periódica, disso soube desde sempre e espero resignado o último ato do espetáculo da vida. É cafona falar assim, mas a realidade é essa. Desconheço a hora, porém, o local já foi escolhido, será na minha fazenda, num verão qualquer, sei que vai ser no verão, pois tenho pouco tempo. Enquanto namorados estiverem tomando sorvete, trepando ou caminhando de mãos dadas pelo sol estarei a morrer, acompanhado apenas de minha assessora de longa data, a Roberta e outros empregados e animais no centro-oeste do país.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Dois tipos de seres que mais aprecio são meus cavalos e funcionários da fazenda, ambos não puxam meu saco, tão cagando para o que faço; desconhecem que atuei grande período em comédia teatral para encher com um pouco de graça momentânea a vida das plateias que me prestigiaram, ter trabalhado nisso foi um preenchimento importante, ao contrário das adaptações e montagens dramáticas, que são ferramentas psicológicas de fragmentação e desenvolvimento interior, egoísticas, inclusive, as comédias são bem diferentes, mas antes mesmo da doença já havia me fartado delas. Dizem alguns que aplausos acordam os deuses, recebi muitos, mas pouco importa tais frivolidades. Não acredito nelas. Nem em deuses.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Apenas vivi a paixão pelo ofício, se à raia da minha entrega absoluta foi compreendida, ótimo, morrerei extasiado, se não for também, tanto pior. Em suma, o grande público me abraçou, mas não enriqueci como muitos julgam. Primeiramente porque fiz pouca televisão, o que considero uma bênção, apesar de alguns desprezíveis invejosos dizerem que sou rico por ter gastado alguma soma alta em charutos ao sair duma tabacaria na zona sul. Tudo é epicurismo e prazeres negados são maléficos ao âmago. Nunca os reneguei. Se tiver algo a ser renegado são pedidos de autógrafos, fotos. Reconheço o ego estratosférico dos atores de televisão e teatro que contracenei e dirigi. Pena o inferno inexistir, se fosse Deus, criaria um inferno todo especial para atores ególatras, seria assim: estes viveriam pela eternidade postos por magnetismo imobilizados dentro da coxia, espécie de umbral, enquanto magníficos Dionísios esbaldar-se-iam orgiásticos junto a anjos celestes pelo palco para um público infinito a galardoar palmas ensurdecedoras&#8230;</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Namorei, sem nunca casar, algumas atrizes estonteantes. Ah, as atrizes e seus mistérios metafísicos, suas belezas e incertezas emocionais, camaleônicas, luxuriosas, nada prosaicas, cada qual bem alinhada à particularidade genuina e feminina de seus expressionismos tanto em cena quanto na cama, devotas de perplexo amor à arte, únicas e, ah, súblimes e intocáveis a qualquer compreensão. Já outras&#8230; melhor seria terem nascido mudas e mancas, ao invés de escrever modelo-atriz ao fazer check-in na recepção do hotel.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Qualquer ser artístico em hipótese alguma deve dirigir automóvel, esta praga metálica que atulha o mundo sem revés libertário, não fora feita para pessoas como nós que, por maior concentração direcionada em nosso ofício, acabamos por perdê-la desbragadamente quando tentamos guiar o volante. Muitos amigos com opinião semelhante sempre viveram de táxi e, inclusive, morreram dentro deles, como o caríssimo Dias Gomes ou a promissora Kekél Mattoso, desconhecido transformista que levou um tiro no rosto ainda maquiado por xavecar um taxista. Mas a alma contestatória que carrego se impôs, é claro, a isso. Preferi viver o absurdo e dirijo meu carro a contragosto, como o contrato irrecusável para certo espetáculo onde o diretor lhe gera antipatia.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Foi exatamente dentro do meu carro onde tudo aconteceu.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Refletia melancólico, com as mãos pousadas no volante e a chave guardada no bolso da camisa assim que a porta fora aberta pela jovem mulher. Àquela altura eu já havia possuído todos os prazeres e vilezas que um homem como eu poderia ter quando se trata de mulher. Todos.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">A alguns quarteirões daquela rua funcionava a clínica onde me consultei antes da cirurgia marcada que fiz dias depois. O meu caso, de acordo com o médico, era inoperável, câncer de próstata em estágio avançado. Insisti porque sou tolo, acima de tudo, decidi ser operado por carregar alma torta e contestadora, mesmo detendo raiva e desconfianças com médicos, optei por viver novamente o absurdo. Pergunte a seu médico se ele conhece Beckett, e ele lhe jogará a pergunta de volta, perguntando se é uma síndrome nova.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">A rua era arborizada, num bairro residencial, pouco movimentada tanto de dia como à noite, era dia e a chuva engrossava, se ali houvesse crianças, certamente esbaldar-se-iam num banho pouco intrigadas com trovões ou aguaceiros, mas havia somente eu ali quando ela entrou, disparatada, a porta bateu em sincronia com um relâmpago. Levei susto, pensando que fosse assalto, sequestro, enfim, algum tipo de paranoia tão comumente urbana.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Ela era diametralmene oposta a qualquer mulher já vista, o absurdo no prisma palpável da beleza. A princípio nada falamos. Sua mão de dedos longos, percebi logo quando alisou meu rosto, forçou-me, confiante, a fechar os olhos, embasbacado como um sonho bom a ser prolongado para o infinito. De nós dois? Não havia duas pessoas, gotas a escorrer pelos vidros do carro, corpos a serem tocados, nem tempestade, doença ou até mesmo a aflição que me entristeceu ao saber que não haveria infinito nenhum, possibilidades alguma, entretanto a penugem do meu pescoço se eriçou quando o dedo começou a deslizar a caminho de um tempo desmemoriado e perdido à nossa volta. Meu coração, naquele instante, parou de bater. Queríamos ir para a cama, telepatas a desconstruir a atmosfera de um lugar-comum. Não éramos comuns.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">E Shakespeare viu que aquilo era bom.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">&#8220;Qual seu nome?&#8221; perguntei, finalmente abrindo os olhos, encarando-a.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">&#8220;Meu nome não interessa -, ela sorriu e pegou o envelope da clínica, pousado no meu colo -mas o teu sim&#8221;, e leu, sem parar de sorrir.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Desde aquele instante soube que ela não tinha sequer cogitado minha identidade, quem eu fosse ou que fazia. Não era atriz desempregada pronta para qualquer esbórnia, nem isca para crimes ou jornalista antiética em busca de entrevista, já que sempre as neguei, tampouco alguém com medo de ser atingido por um raio procurando se abrigar da chuva. Sua roupa e cabelos estavam praticamente secos, sem bolsa.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">&#8220;O que você quer de mim, por que entrou nesse carro?&#8221;</span></p>
<p><span style="color:#000000;">&#8220;Ao longo da existência sempre intuí como ia reagir se visse o grande amor pela primeira vez, tive certeza quando te vi, sabe por que? Sorri! Sim, sorri. Você passou em frente ao café, virou o rosto para o vidro espelhado, só eu podia vê-lo, sorri porque te reconheci&#8221;</span></p>
<p><span style="color:#000000;">&#8220;Estou morrendo&#8221; Interrompi.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Lá fora a chuva redobrava. Talvez ela não tenha me escutado, prosseguiu</span></p>
<p><span style="color:#000000;">&#8220;O homem que deixei sentado à mesa no café e até agora deve estar se perguntando o motivo de eu ter saído, aquele homem e todos os outros, fazem o mesmo sentido que isso &#8211; ela começou a esfregar o vidro já completamente embaçado pela nossa respiração &#8211; eles são efêmeros&#8221;.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">O que aquela fabulosa mulher desconhecia, era a extensão dos problemas que cerceiam quem tem essa doença acometida ou até mesmo quem foi curado. A ereção vai-se embora, os remédios são ineficazes, a humilhação é certa. Mas o modo como ela falava continha uma certeza tão vívida e sincera que até esqueci a rápida probabilidade que cruzou minha cabeça, de ela dividir seu coração comigo e a genitália com o outro, que a esperava no café, mesmo nos poucos meses que antecederiam minha morte.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Depois de escutá-la, as incertezas desmoronaram, não tive mais dúvidas, abri o jogo. Ela pediu que fôssemos até sua casa para pegar roupas, documentos, pequenas coisas. Enquanto escolhia os pertences, esperei-a dentro do carro, invadido por uma estranha sensação eufórica, prazerosa, subitamente mesclada com melancolia, pensei em ir embora. Arrancar com o carro dali. Mas a opressão melancólica demorou-se menos do que supunha. Assim como ela, ajudada pelo porteiro, veio carregando duas malas médias e uma espécie de caixa de transporte com um pequeno cachorro. Ri quando soube o nome, Tchékov.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Telefonei para Roberta, minha assessora, e disse que não precisaria dela para me acompanhar na fazenda. Expliquei os motivos, para tranquilizá-la. Isto de nada adiantou. Ao desligar, tive a impressão de ouvi-la conter o choro abafado pelo soluço.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Vendi a fazenda para um empresário do ramo agropecuário, vizinho meu, que pretendia expandir seus hectares e lucros. Vendi também animais e demiti os funcionários dando-lhes boa gratificação. Comprei um sítio menor. Começamos a criar galinhas, temos horta própria, virei vegetariano. Temos transado com muita frequencia. Finalmente estou escrevendo um livro. Não de auto-ajuda, pois a convalescença não me rendeu ilusões, misticismos ou conversões. Duas vezes por ano vou a cidade e refaço exames específicos. Posso dizer seguro e comovido, que minha cura não foi dada graças a medicina <em>dos homens, </em>ao <em>deus dos homens </em>ou as <em>químicas neandertais, </em>e sim ao amor, tão remoto quanto a finitude. E cá para nós, o que não é finito nesta vida?</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Uma junta de especialistas canadenses avaliou meu caso clínico, espantados com a rápida recuperação, visto que minha patologia era metastática, pretendem vir ao Brasil no próximo verão, para fazer uma entrevista para um estudo a ser publicado numa revista científica ao que consideram um milagre para a medicina moderna.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Neguei a visita.</span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/dozes.wordpress.com/1001/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/dozes.wordpress.com/1001/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/dozes.wordpress.com/1001/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/dozes.wordpress.com/1001/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/dozes.wordpress.com/1001/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/dozes.wordpress.com/1001/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/dozes.wordpress.com/1001/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/dozes.wordpress.com/1001/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/dozes.wordpress.com/1001/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/dozes.wordpress.com/1001/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/dozes.wordpress.com/1001/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/dozes.wordpress.com/1001/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/dozes.wordpress.com/1001/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/dozes.wordpress.com/1001/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=dozes.wordpress.com&amp;blog=13327426&amp;post=1001&amp;subd=dozes&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Siriricando o cisto</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Mar 2011 02:23:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>William</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não necessito alcançar a velhice ou ser acometido por doença terminal para disparar sinceridades a quem eu bem entenda. E isso vale pra patrão, amores e família.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=dozes.wordpress.com&amp;blog=13327426&amp;post=1043&amp;subd=dozes&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#000000;">Não necessito alcançar a velhice ou ser acometido por doença terminal para disparar sinceridades a quem eu bem entenda. E isso vale pra patrão, amores e família.</span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/dozes.wordpress.com/1043/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/dozes.wordpress.com/1043/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/dozes.wordpress.com/1043/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/dozes.wordpress.com/1043/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/dozes.wordpress.com/1043/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/dozes.wordpress.com/1043/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/dozes.wordpress.com/1043/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/dozes.wordpress.com/1043/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/dozes.wordpress.com/1043/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/dozes.wordpress.com/1043/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/dozes.wordpress.com/1043/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/dozes.wordpress.com/1043/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/dozes.wordpress.com/1043/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/dozes.wordpress.com/1043/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=dozes.wordpress.com&amp;blog=13327426&amp;post=1043&amp;subd=dozes&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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